quinta-feira, 7 de junho de 2012

Quecas e amores impossíveis

Há umas semanas atrás, fui beber um café com uma amiga minha que estava inconsolável. Tinha acabado de dar com os pés lá com um rapaz lá dos seus conhecimentos. Pronto, resumindo: depois de uma noite de copos e de uma queca torta, a que a minha amiga disse que sim para se libertar de tensões e não perder o jeito, mal ela tinha recuperado do último ai e já o rapaz se lançava aos seus pés, em pelota, qual Romeu mas sem os calções, a dedicar-lhe amor eterno. Apanhada com as roupas atiradas como despojos de um barco pelo quarto, a minha amiga foi buscar a dignidade ao lençol repuxado até ao queixo para lhe explicar que aquilo era aquilo que tinha sido: uma queca. O rapaz ficou devastado e saiu meio nu porta fora. A minha amiga mais devastada ficou. "É que ele é mesmo querido", percebes, "mas eu não estou apaixonada e nunca vou estar, o que torna impossível ficar com ele", dizia-me fungando para cima de mesa. Lá lhe disse os chavões da praxe, mas a certa altura cansei-me dos 'não tens culpa de te sentires assim' ou 'não fizeste nada de errado, se nem sequer lhe deste esperança' e decidi libertar a alma do seguinte axioma: tu estás na merda não é por empatia com o sofrimento alheio nem nada que se pareça, mas porque te sabia tão bem toda essa dedicação, era ouro sobre azul se a pudesses aceitar, e na verdade estás a chorar por tua causa, por um desejo do ego frustrado, por um 'foda-se tenho tanto azar que o tipo que me dá aquilo que eu quero foi apenas uma queca meio torta', e porque por alguns minutos o rapaz devolveu-te com essa entrega uma imagem de ti como ser digno de ser amado e choras porque não podes manter essa imagem. Ainda por cima, porque agora ele acha que és um simples cadela sem sentimentos, o que significa que a ideia idealizada se desvaneceu. no ar.Terminado o discurso, a minha amiga pareceu subitamente mais calma. Respirou fundo, assoou o nariz e passados três minutos seguia a vida dela. Escusado é dizer que nunca mais me deu noticias.

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