segunda-feira, 23 de Abril de 2012

As tarefas domésticas e a impermanência das coisas

Não gosto das ditas tarefas domésticas. Quando penso nisso, julgo que o que me perturba, o facto incontornável com o qual não consigo lidar, é a sua natureza impermanente. Não duram. Quer dizer, passa-se um vestido a ferro para ser usado e passado uns dias é novamente esfregado pelo ferro depois de esfrangalhado na máquina de lavar, aspira-se freneticamente para duas horas depois começarem a surgir, ruidosos ao olhar, os primeiros pêlos e migalhas, a dita pegada ecológica espalhada pela minha sala de estar. É pelo mesmo motivo que odeio cozinhar. Meia hora de refeição precedida por meia hora na cozinha, a que se segue a outra meia hora para meter tudo na ordem. Por meu desejo encomendava tudo já feito ou comia fora todas as noites (o dinheiro claro que ajuda a escapar desta angustia da impermanência contratando eslavas a baixo custo). Mas como não sou rica, vivo confrontada com a sensação de impermanência, muito budista por sinal, mas que a mim nada me ajuda porque os lençóis da cama não se trocam por meu desejo. Nada dura, vive apenas aquele momento ilusório e breve no tempo em que acreditamos que a missão está cumprida. Breve prazer. Porque depois, lá vêm o gato sujar-me o bidé outro vez com as patas todas cagadas, símbolo brutal da realidade. E aí sou percorrida pela extrema angústia da passagem cruel do tempo. E de não ter forma de contratar uma eslava para todos os dias me libertar destes problemas existenciais.

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