segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Fado, futebol, mas sem família

Tive um fim-de-semana em cheio. Repleto de emoções fortes. É que é raro os três ‘f’ do património luso – família (eu sei que é Fátima, mas neste momento nossa senhora está em hibernação), futebol e fado - fazerem parte integrante da minha vida, mas como arquétipos nacionais que são, inscritos no nosso ADN, era óbvio que não lhes poderia escapar, por muito que diga que não sei o hino -o que é mentira, claro que sei, fui obrigada a decorar, sob coação de uma régua, na escola primária, pérolas como 'Nação valente e imortal/Levantai hoje de novo o esplendor de Portugal', isto porque a minha professora estava em negação do 25 de Abril, mas sempre achei 'A Portuguesa' completamente anacrónica, afinal, os franceses e os canhões já eram, e os avós também, pelo que pedir ao James Murphy para dar uns ajustes àquilo e torná-lo pelo menos mais dançável sempre me passou pela cabeça - e que me estou nas tintas para este país à beira mal plantado com aspirações a um qualquer quinto império. Este fim-de-semana, eu, como todos os portugueses, tive motivos de sobra para celebrar. Uma overdose deles. Antes de mais, um derby. E um derby é um derby – que se lixe a cultura nacional quando o tema é futebol e chamemos-lhe um nome internacional  para ser mais fino - e até eu, que sou uma futebol-excluída, sei que isso significa, além de confusão e porrada e malta a comer-se viva e a gritar palavras bonitas nas barbas da polícia, e a ameaçar outros seres humanos, nas barbas da polícia, e a pegar fogo a estádios, nas barbas da polícia, e a dizer ‘eu mato-te meu lampião de merda’, nas barbas da polícia, mas mesmo assim ainda ter direito a uma escolta policial e ser protegido como se aquele comportamento fosse normal, bem, dizia eu que sei que isso significa estar com os amigos na tasca mais tasca que houver à face do planeta, desde que tenha sport tv,a partilhar imperiais, gritos e insultos ao árbitro e a fingir durante duas horas que até se gosta daquilo. O Benfica marcou, gritou-se, insultámos os sportinguistas presentes e depois a noite seguiu o seu rumo, jogo esquecido passado meia hora.

Mas a juntar-se ao derby Benfica-Sporting, que uniu a nação benfiquista em ódio comum aos lagartos e nos deu um sentido único de vitória durante 30 minutos – houve ainda o segundo ‘f’, não de foda, mas de fado, este fim-de-semana. Domingo à hora de almoço, ainda entontecida pelos vapores da vitória da noite anterior e impregnada de um afrodisíaco aroma a tabaco no cabelo, ligo a televisão, para ver o país em euforia. Esqueci a austeridade, o sermos lixo para o mundo, o lobby das agências de rating, os amigos no subsídio de desemprego ou a vender rissóis para fora a ver se conseguem sobreviver, os subsídios que não irei ter, os impostos que vou pagar, os despedimentos colectivos e os cortes de orçamento, esqueci tudo, porque algo de muito importante aconteceu: o fado foi declarado património imaterial da humanidade pela Unesco e o país estava em festa, eram fadistas em todo o lado, ou possidónios armados em fadistas, declarações à beira das lágrimas, populares desdentados a aplaudir no meio da rua, o António Costa a mostrar o iPhone com o vídeo da Amália a uns tipos indonésios que não percebiam patavina do que se estava a passar, seres alucinados que tinham passado a noite em claro à espera do grande anúncio reunidos no Museu do Fado, comentadores e especialistas do fado a tentarem vender o seu último livro na televisão. Deixei-me levar pela euforia, da mesma maneira que na noite anterior tinha comemorado com vinho e alguns palavrões bem tugas o golo do Benfica. Mas durou ainda menos do que a emoção futebolística e, de repente, dei por mim a pensar: mas que raio é que isto interessa? A bem da verdade, digam-me? Sempre me marimbei para os patrimónios mundiais, principalmente os imateriais. O fado existe, ponto, e vai existir enquanto houver senhoras e senhores que forem capazes de fazer aquelas coisas esquisitas com a garganta e outros senhores que gostem de ouvir e de casas de fado deprimentes e escuras. Património só se for o pouco que tenho no banco. Humanidade? A Humanidade está-se nas tintas para nós. E que tal convidar os senhores da Moodys para um casa de fado a ver se a coisa muda e eles pensam que nós somos a Roménia ou assim e lá nos dão mais crédito, é pá, afinal eles não são do terceiro mundo? Fiquei feliz por ver comprovados todos os meus piores pensamentos sobre os portugueses.

PS: Estava demasiado cansada este fim-de-semana para me dedicar ao terceiro ‘f’, o de família, por isso inventei uma desculpa para escapar a todos os compromissos familiares e ficar em casa a ouvir Fado e a ver em replay o golo do Benfica.  

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